sábado, janeiro 23, 2010

Sobre a campanha do Obama... algumas mistificações sobre a web

Terminei de ler ontem o livro do David Plouffe, um dos marqueteiros chefe da campanha do presidente Obama. Trata-se de “The audacity to win”, que narra a eleição de 2008.

Foi um grande prazer encarar as quase 400 páginas do livro. Apesar de Plouffe às vezes pender um pouco para a estilização narrativa (o que não me interessava nem um pouco), a obra fica mais focada no “mainstream”, isto é, como foi a campanha. Mas essa estilização narrativa aparecia apenas em alguns momentos. Foram modestos devaneios, e não delírios estéticos que comprometessem a obra.

Bem, e ao ver como foi a campanha, fica nítido para mim que a internet foi peça secundária no fenômeno Obama. O que havia em questão:

1. Um candidato carismático, coerente e obstinado na disciplina de sua estratégia eleitoral

2. Uma equipe competente, capaz de uma estratégia eleitoral consistente e muito hábil na produção de mensagens multiplataforma (web, TV, SMS, rádio, jornal, cartazes e toda a parafernália comunicativa que você possa imaginar).

3. Uma nítida mensagem contra as guerras (e aí, ironicamente, o candidato deixou a desejar na hora da verdade...)

4. Uma nítida crítica contra o “establishment” político norte-americano (assim como maldizemos Brasília, eles maldizem Washington.

5. Um governo em crise de popularidade que, para piorar, foi abatido por uma crise política a poucas semanas da eleição.

Foi uma vitória formidável. Em termos de colégio eleitoral, ele ganhou de lavada: 365 votos contra 173, mas o também senador McCain não fez feio em termos de votos populares. Conseguiu 45,7% do eleitorado, contra 52,9% do Obama (uma diferença de apenas 7,2 pontos percentuais)... o mérito da equipe do Obama nesse sentido, aliás, foi fazer uma dedicadíssima campanha de modo a sobrepujar o adversário em estados-chave, com grande quantidade de votos.

Nos EUA, a eleição presidencial é indireta. Os delegados eleitos é que votam no presidente, e quem ganha um estado, ganha todos os votos dos delegados daquele Estado. O Texas, por exemplo, tem direito a 34 delegados. Lá venceu McCain. Ele ficou com os 34 votos do Estado.

Sim, Obama é negro, mas o eleitorado já havia dado demonstrações de que não levaria o racismo em conta. O então senador Obama, com seu carisma, derrubou facilmente essas objeções.

O que podemos ver na estratégia web de Obama, segundo o livro de Plouffe? Pouco twitter, pouco facebook... como eles usaram a web?

1. Produziram um bom site no qual criaram um sistema de arrecadação de verbas junto a voluntários (é difícil imaginar no Brasil voluntários dando dinheiro para campanhas eleitorais).

2. Criaram um poderoso mailing que reuniu milhões de americanos e criou um canal de comunicação direta com eles (isso é a web mais tradicional...)

3. Criaram um canal no Youtube para divulgar mensagens do candidato e de sua assessoria. Plouffe inclusive conta que começou a se comunicar via webcam com o público... alguns da equipe criticaram, dizendo que parecia vídeo de seqüestrado... mas quando fizeram “bonitinho”, os internautas chiaram, e ele voltou ao estilo antigo, de “seqüestrado”.

4. Criou uma rede de entusiastas que divulgava espontaneamente a “causa obamista”...

Mas porque então não atribuir a eleição à web? Ora, eles usaram massivamente mídia tradicional (e estavam certíssimos), tinham um candidato com uma excelente mensagem e captaram o apoio popular.

Sobre as ferramentas de web:

1. A doação de dinheiro só “funcionou” porque o povo acreditava em Obama. Não basta haver um espaço na web com um “clique aqui e doe”.

2. O mailing é interessante, mas já é usado há anos na política e nas técnicas de marketing comercial.

3. O Youtube foi realmente uma idéia legal, mas já vi muitos fazerem...

4. O segredo mesmo foi criar uma onda de entusiasmados que faziam espontaneamente propaganda política para o candidato. Isso só se consegue com um bom candidato.

O que tem mexido com a questão no Brasil é que muitas vezes se enfatizam a forma mais que o conteúdo...

O Obama está de parabéns, mas não acreditem que a web, sozinha, elege alguém.

Um comentário:

Débora disse...

Oi tio!!! Voltei com o meu blog! Agora com o Jovens Urbanos eu preciso ficar na ativa virtual né!!
beijinhoss