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segunda-feira, maio 27, 2019

Casos de infecção por Aids caem no geral, mas número de jovens infectados aumenta

Guilherme Maldaner
PUC-Campinas

Rosângela Prado: "descobrir que possui a doença requer
uma baita força psicológica"
O Brasil teve uma redução de 16% na detecção de casos de Aids de 2012 a 2018. A notícia positiva entretanto esconde uma informação preocupante. Das 48 mil novas infecções causadas pelo vírus HIV, 35% desse número equivale a jovens brasileiros de 15 a 24 anos, o que sinaliza um aumento da população jovem infectada pela doença. Os dados constam do Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde no dia 27 de novembro de 2018.

Conforme o número geral diminui, a porcentagem de detecção em jovens, dentro dessa mesma apuração, aumenta. Segundo pesquisa divulgada pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), as estimativas recentes indicam que, de 48 mil novas infecções causadas pelo vírus HIV, 35% desse número equivale a jovens brasileiros de 15 a 24 anos.

Dados do Boletim Epidemiológico, fornecidos pelo Ministério da Saúde, dizem que casos de Aids entre jovens brasileiros, principalmente do sexo masculino, com 15 a 19 anos, foi de 2,4 para 7,0 casos por 100 mil habitantes, de 2006 até 2017, ou seja, quase triplicando. Já na faixa entre 20 e 24 anos, o índice mais que dobrou, indo de 16,1 para 36,2 casos por 100 mil habitantes.

Rosângela Prado é técnica de enfermagem e responsável pela enfermaria da Associação Esperança e Vida, ONG que presta auxílio a portadores do vírus HIV, dependentes químicos e moradores de rua. Ela diz que, atualmente na ONG, a maioria dos pacientes são adultos na faixa dos 40 a 50 anos. Os jovens que lá residiram acabaram não resistindo. “Você descobrir que possui a doença requer uma baita força psicológica, e muitos acabaram por não resistir, ainda mais com os coquetéis que ainda não eram tão desenvolvidos como nos dias atuais”, comentou.

De acordo com Prado, os jovens de hoje em dia desconsideram a gravidade da doença, achando que só por haver remédio, deve ignorar o fato de se precaver. “O método mais seguro até hoje é a camisinha, ou isso ou não fazer nada [risos]. O coquetel [conjunto de remédios para tratamento da Aids] hoje em dia ele ajuda com o vírus, mas vai de cada pessoa, tem gente que reage de um jeito, outros reagem diferente”, disse.

Maurício Bueno: "Às vezes o jovem tem a informação,
mas não tem a consciência"
Aids é a síndrome da imunodeficiência adquirida (acquired immunodeficiency syndrome -  em inglês, AIDS), doença contraída pelo contato com o vírus da imunodeficiência humana (human immunodeficiency virus, em inglês HIV). O diferencial da Aids é que ela ataca o sistema imunológico, deixando a pessoa enfraquecida e susceptível a outras doenças, além de não haver até o momento uma cura. Alguns sintomas que a pessoa com Aids pode apresentar inclui: fadiga persistente e inexplicável, dores de cabeça, febre superior a 38ºC por várias semanas e diarreia por mais de 1 mês, com náusea e vômitos. O vírus HIV pode ser transmitido através da relação sexual (toda e qualquer, sem uso de camisinha) e de uma transfusão de sangue (com sangue contaminado).

Valdecir Lima, que trabalha como porteiro e tem 62 anos, é portador do vírus HIV e trabalha como porteiro. Ele afirma que o principal problema para os jovens de hoje em dia é a irresponsabilidade. “Os jovens não têm noção nem medo da doença, que é muito real. ”

Lima ainda emenda sobre as principais dificuldades de uma pessoa com Aids nos dias atuais, ressaltando a importância do apoio das pessoas mais próximas. “Desde o meu tempo, o preconceito sempre foi o principal problema para a gente. Mas no meu caso, sempre tive o apoio da minha família, ainda mais quando descobri aos 24 anos. Hoje em dia os remédios já estão bem melhores, até porque já passei diversos perrengues [risos]”, disse.

De acordo com o diretor da escola SER, Maurício Bueno, o principal motivo é, além da omissão de prevenção, a falta da conscientização. “Às vezes o jovem tem a informação, mas não tem a consciência dos malefícios que a doença causa, de que é uma doença muito grave”, disse.

Além da família, que ele diz ser a principal forma de conscientizar o jovem, Bueno também considera que a escola tem sua obrigação nesse processo de formação do indivíduo. “O papel da escola é a formação da parte científica, de como funciona o organismo, a doença. Então essa conscientização de prevenção e de higiene, a escola passa para o aluno”.

domingo, março 31, 2019

Casos de HIV positivo crescem 703% em 10 anos entre pessoas de 15 a 24 anos

Paloma Pereira Ruiz

PUC-Campinas

De acordo com o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids de 2018, publicado pelo Ministério da Saúde, no Brasil os casos de HIV entre jovens de 15 a 24 anos aumentaram 700% no período de 2007 a 2017.


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SexoFaixa etáriaNúmero de casos em 2007Número de casos em 2017Aumento percentual
Masculino
15-191051.7241.641,90%
20-245616.6701.188,95%
Feminino
15-19227,00304133,92%
20-24427,00583136,53%
TOTAL1.3209.281703,11%

Na região metropolitana de Campinas, a situação não é diferente, conforme dados do Programa IST/Aids de 2016, a taxa de detecção de HIV entre jovens de 15 a 24 anos subiu 29% em 10 anos, uma vez que esta faixa etária registrou um aumento de 2.3 de infectados desde 1996 até 2016. A cidade registrou também 8.397 casos de HIV de 1982 a novembro de 2017. A região metropolitana de Campinas registrou, em 2016, 207 óbitos pela infecção; desses, 134 eram homens enquanto 73 eram mulheres.

 Todavia, mesmo que o cenário acima apresente certo espanto, é importante ressaltar que de modo geral a taxa de mortalidade por aids no país sofreu um decréscimo de 15,8% entre 2014 e 2017. Pois, ao contrário do que o HIV significava nos anos 1980, onde várias pessoas, inclusive personalidades famosas, morreram pela falta de tratamento apropriado, e outras inúmeras sofreram pela ausência de conhecimento, atualmente as condições para um indivíduo com HIV são completamente diferentes. Hoje há vários locais onde se fazem teste para esta e outras sorologias sem custo nenhum além de ter tratamento adequado disponibilizado gratuitamente pelo SUS. Existe também bastante informação ao alcance das pessoas seja através de site/blogs ou até canais no youtube nos quais pessoas que têm o vírus falam abertamente sobre o assunto, o que ajuda a desconstruir preconceitos e a democratizar o conhecimento.

Janelas de informação
A internet abriu inúmeras possibilidades para a geração atual, e uma delas é a facilidade de acesso a uma vasta quantidade de conteúdos entre os quais pode se encontrar variados materiais sobre o HIV. Como é o caso do  youtube,  plataforma digital de vídeos, escolhida por Gabriel Comicholi, 23 anos, para compartilhar suas vivências com o HIV.



“Descobri o HIV com 20 anos, no ano de 2016, não tenho ideia de onde ou de quem o vírus possa ter vindo, mas imagino que seja de relação sexual. Sempre lidei de uma maneira muito positiva, tentei ver o lado bom de tudo isso. É logico que o momento 'bad' acontece, mas comigo não durou muito, tomei coragem, resolvi me expor e levantar essa bandeira na internet, hoje tenho 23 anos, indetectável, e espalho informação por aí” disse Comicholi. Ele possui uma conta no youtube, onde divide com seus mais 37 mil inscritos suas experiências com HIV, tendo um quadro chamado HDIÁRIO onde relata seu cotidiano como HIV positivo.

Desde os primeiros registros dessa infecção, por volta de 1977, até os dias de hoje, muitas coisas mudaram em termos de tratamento, abordagens e consciência a respeito do tema. O infectologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Francisco Hideo Aoki, destaca a evolução no diagnóstico e no tratamento da infecção: “Muito  mudou em  termos  de diagnóstico preciso, exames confirmatórios, tratamento com combinação de drogas da doença de base -a infecção pelo HIV- , acompanhamento pelo sistema público, monitoramento da infecção com Rede de Laboratórios para realização de quantificação de carga viral, para ver a eficácia do tratamento antiretroviral, quantificação de linfócitos TCD4 para monitorar o tratamento,  disponibilização  pelo  sistema público  de medicamentos  para o  HIV, para as infecções oportunísticas, os locais de internação , os hospitais-dia, a Rede de laboratórios espalhados pelo Brasil  entre muitas outras coisas. A situação melhorou muito”, destacou.

Além disso, a qualidade de vida de um soropositivo, que faz acompanhamento médico e que tem acesso a um tratamento apropriado é satisfatória. Segundo Aoki, ”para quem tem acesso ao acompanhamento, ao tratamento e as constantes orientações que podem receber dos serviços de saúde aos quais estão ligados, com pessoas que têm ótima aderência ao tratamento tempos bem superiores e mais de 2 /25 anos de sobrevida”, afirmou o médico.

Há também possibilidade de, com o tratamento adequado, o vírus no paciente venha a se tornar indetectável. “Em termos de quantificação de carga viral do HIV1, trata-se de não ter um número de cópias de RNA viral que sejam detectáveis, pelo padrão estabelecido pela metodologia vigente e de acordo com a técnica de biologia molecular. Atualmente, em toda a Rede de Detecção de Carga Viral do HIV1, com mais de 80 laboratórios executores dessa metodologia, resultado indetectável significa que há menos que 40 cópias de RNA viral do HIV1/mm3”, comenta.

No entanto, sobre o aumento de casos de HIV entre jovens no Brasil, Francisco H. Aoki comenta: “uma das razões (para este fenômeno) pode ser o abandono de práticas de prevenção. Essa população poderia ser alertada por propagandas, por disseminação massiva de informações. Desde o início da epidemia, muita propaganda se fazia e, na medida em que a política de prevenção, de tratamento, de monitoramento da infecção, entre muitas outras coisas foram melhorando, deu-se a impressão de que os jovens que não vivenciaram o boom da Aids não têm noção da gravidade do processo infeccioso e quão devastadora pode ser a Aids”, afirmou.