Paloma Pereira Ruiz
PUC-Campinas
De acordo com o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids de 2018, publicado pelo Ministério da Saúde, no Brasil os casos de HIV entre jovens de 15 a 24 anos aumentaram 700% no período de 2007 a 2017.
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Na região metropolitana de Campinas, a situação não é
diferente, conforme dados do Programa IST/Aids de 2016, a taxa de detecção de HIV
entre jovens de 15 a 24 anos subiu 29% em 10 anos, uma vez que esta faixa
etária registrou um aumento de 2.3 de infectados desde 1996 até 2016. A cidade
registrou também 8.397 casos de HIV de 1982 a novembro de 2017. A região
metropolitana de Campinas registrou, em 2016, 207 óbitos pela infecção; desses,
134 eram homens enquanto 73 eram mulheres.
Todavia, mesmo que o cenário acima apresente certo espanto, é importante ressaltar que de modo geral a taxa de mortalidade por aids no país sofreu um decréscimo de 15,8% entre 2014 e 2017. Pois, ao contrário do que o HIV significava nos anos 1980, onde várias pessoas, inclusive personalidades famosas, morreram pela falta de tratamento apropriado, e outras inúmeras sofreram pela ausência de conhecimento, atualmente as condições para um indivíduo com HIV são completamente diferentes. Hoje há vários locais onde se fazem teste para esta e outras sorologias sem custo nenhum além de ter tratamento adequado disponibilizado gratuitamente pelo SUS. Existe também bastante informação ao alcance das pessoas seja através de site/blogs ou até canais no youtube nos quais pessoas que têm o vírus falam abertamente sobre o assunto, o que ajuda a desconstruir preconceitos e a democratizar o conhecimento.
Janelas de informação
A internet abriu inúmeras possibilidades para a geração atual, e uma delas é a facilidade de acesso a uma vasta quantidade de conteúdos entre os quais pode se encontrar variados materiais sobre o HIV. Como é o caso do youtube, plataforma digital de vídeos, escolhida por Gabriel Comicholi, 23 anos, para compartilhar suas vivências com o HIV.
“Descobri o HIV com 20 anos, no ano de 2016, não tenho ideia de onde ou de quem o vírus possa ter vindo, mas imagino que seja de relação sexual. Sempre lidei de uma maneira muito positiva, tentei ver o lado bom de tudo isso. É logico que o momento 'bad' acontece, mas comigo não durou muito, tomei coragem, resolvi me expor e levantar essa bandeira na internet, hoje tenho 23 anos, indetectável, e espalho informação por aí” disse Comicholi. Ele possui uma conta no youtube, onde divide com seus mais 37 mil inscritos suas experiências com HIV, tendo um quadro chamado HDIÁRIO onde relata seu cotidiano como HIV positivo.
Desde os primeiros registros dessa infecção, por volta de
1977, até os dias de hoje, muitas coisas mudaram em termos de tratamento,
abordagens e consciência a respeito do tema. O infectologista e professor da
Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Francisco Hideo Aoki, destaca a
evolução no diagnóstico e no tratamento da infecção: “Muito mudou em
termos de diagnóstico preciso,
exames confirmatórios, tratamento com combinação de drogas da doença de base -a
infecção pelo HIV- , acompanhamento pelo sistema público, monitoramento da
infecção com Rede de Laboratórios para realização de quantificação de carga
viral, para ver a eficácia do tratamento antiretroviral, quantificação de
linfócitos TCD4 para monitorar o tratamento,
disponibilização pelo sistema público de medicamentos para o
HIV, para as infecções oportunísticas, os locais de internação , os hospitais-dia,
a Rede de laboratórios espalhados pelo Brasil
entre muitas outras coisas. A situação melhorou muito”, destacou.
Além disso, a qualidade de vida de um soropositivo, que faz acompanhamento médico e que tem acesso a um tratamento apropriado é satisfatória. Segundo Aoki, ”para quem tem acesso ao acompanhamento, ao tratamento e as constantes orientações que podem receber dos serviços de saúde aos quais estão ligados, com pessoas que têm ótima aderência ao tratamento tempos bem superiores e mais de 2 /25 anos de sobrevida”, afirmou o médico.
Há também possibilidade de, com o tratamento adequado, o vírus no paciente venha a se tornar indetectável. “Em termos de quantificação de carga viral do HIV1, trata-se de não ter um número de cópias de RNA viral que sejam detectáveis, pelo padrão estabelecido pela metodologia vigente e de acordo com a técnica de biologia molecular. Atualmente, em toda a Rede de Detecção de Carga Viral do HIV1, com mais de 80 laboratórios executores dessa metodologia, resultado indetectável significa que há menos que 40 cópias de RNA viral do HIV1/mm3”, comenta.
No entanto, sobre o aumento de casos de HIV entre jovens no Brasil, Francisco H. Aoki comenta: “uma das razões (para este fenômeno) pode ser o abandono de práticas de prevenção. Essa população poderia ser alertada por propagandas, por disseminação massiva de informações. Desde o início da epidemia, muita propaganda se fazia e, na medida em que a política de prevenção, de tratamento, de monitoramento da infecção, entre muitas outras coisas foram melhorando, deu-se a impressão de que os jovens que não vivenciaram o boom da Aids não têm noção da gravidade do processo infeccioso e quão devastadora pode ser a Aids”, afirmou.
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