Gabriely Ártico
PUC-Campinas
O médico infectologista Rodrigo Angerami, professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, destaca que a vacina contra a gripe é necessária mesmo para quem se vacinou ano passado. Este ano, a imunização tem duas novas duas cepas de vírus, ou seja tipos de vírus. O dado foi divulgado pelo Ministério da Saúde em nota.
“Anualmente, a composição da vacina [contra a gripe] trivalente [com três tipos de vírus] é revisada e alterada, de modo a incluir os vírus que mais provavelmente circularão no inverno. É por esse motivo que a vacina de um dado ano não necessariamente será a mesma do ano anterior e, nesse caso, se fundamenta uma das justificativas para a vacinação anual, mesmo para aqueles que receberam a vacina no ano anterior”, afirmou Angerami.
Para garantir a prevenção da gripe, o Ministério da Saúde orienta medidas gerais de proteção – constante lavagem de mãos, adoção da etiqueta como cobrir o nariz e a boca ao tossir para evitar a proliferação do vírus, assim como também evitar o compartilhamento de objetos pessoais como copos e talheres.
Os indivíduos que se identificarem com os sintomas da gripe devem procurar atendimento em saúde, evitar sair de casa durante o período de transmissão da doença que é de até 7 dias após a aparição dos sintomas, mantendo-se longe de aglomerações, lugares fechados e adotar hábitos saudáveis, como alimentação balanceada e ingestão de líquidos.
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domingo, maio 12, 2019
sábado, maio 11, 2019
Sinfônica homenageia Diretas
Larissa Biondi
PUC-Campinas
Comemorando seus 90 anos, a Orquestra Sinfônica de Campinas (OSMC) apresentou, no Teatro Municipal Castro Mendes, nos dias 27 e 28 de abril, dois concertos em homenagem ao comício do movimento Diretas Já, realizado há 35 anos no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Com uma média de 500 pessoas na plateia no sábado e 400 pessoas no domingo, os concertos, regidos pelo diretor artístico e maestro Victor Hugo Toro, reproduziram o mesmo repertório da apresentação feita pela Orquestra em abril de 1984, com o então maestro Benito Juarez.
O início dos concertos se deu com o Hino Nacional, acompanhado pelo canto da própria plateia entusiasmada. O restante do programa contou com a apresentação de obras de Ludwig van Beethoven (Sinfonia Nº 5, Op. 67, Mov. I), Nikolai Rimsky-Korsakov (Capriccio Espagnol, Op. 34), o campineiro Carlos Gomes (Alvorada de “Lo Schiavo”), Johann Strauss (Vozes da Primavera e Valsa do Imperador), Geraldo Vandré (Pra não dizer que não falei das flores), Moraes Moreira (Frevo das Diretas) e uma coletânea de Milton Nascimento (Travessia; Maria, Maria; Coração de Estudante; Menestrel das Alagoas; Os Bailes da Vida).
Recepcionada com longos períodos de aplausos entre uma música e outra e mostrando-se sempre agradecida, a OSMC concedeu ao público momentos emocionantes como a abertura com o Hino Nacional e os discursos feitos pelo maestro Victor Hugo Toro, que apresentou a todos os músicos da Orquestra os quais tocaram na apresentação feita no comício e continuam em atividade quase 40 anos depois. Durante a apresentação de “Pra não dizer que não falei das flores”, ao sinal do maestro, a plateia cantou o refrão em coro. Aplaudidos de pé durante alguns minutos no final do concerto de domingo, o maestro e os músicos fizeram um bis e fecharam a apresentação com “Aquarela do Brasil”.
Com uma plateia diversa, o concerto contou com a participação de crianças, jovens, adultos e idosos. Bianca (14), Mel (15) e Eugênio (15), foram ao concerto por já possuírem gosto por música clássica. “Eu gosto desse tipo de música e acho que a gente tinha que participar mais de eventos como esse na nossa cidade” disse Bianca. “Eu gostei muito. Particularmente, eu gostei mais da primeira parte que eram as músicas mais clássicas, mas eu também gostei dessa mistura com músicas mais modernas na orquestra” continuou. Com Mel, não foi diferente: “eu vim porque eu gosto desse tipo de música e pra incentivar a música e a cultura no nosso país. Eu gostei muito, mas eu gostei mais da primeira parte também, mesmo que o foco estivesse na segunda com relação ao movimento das Diretas Já”. Eugênio, por fim, afirmou já ter o hábito de frequentar concertos e elogiou o programa: “Eu gostei, é inovador, é inédito. Não é todo concerto que traz esses programas”. Maria Aparecida Martins Rangel, 76, professora aposentada da rede estadual, também não economizou seus elogios e defendeu o espírito de nacionalidade que a população brasileira deve ter: “O início do concerto foi um espetáculo maravilhoso, inesperado. Esse Hino Nacional orquestrado, cantado com o entusiasmo que eu vi hoje, é coisa de realmente arrebatar o coração. Isso devia se repetir mais vezes porque nós precisamos desse espírito de nacionalidade, de brasilidade. O concerto em si foi maravilhoso, as valsas davam vontade de sair valsando, mesmo, e o final com a nossa Aquarela do Brasil foi espetacular. Enfim, isso devia se repetir muito mais vezes”.
A Orquestra e as Diretas
Há 35 anos, em abril de 1984, 1,5 milhão de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em um comício do movimento suprapartidário “Diretas Já”. A passeata pró-eleições diretas foi realizada na Praça da Sé e recebeu a Orquestra Sinfônica de Campinas, regida pelo maestro Benito Juarez. Devido a esse evento, a Orquestra passou a ser conhecida como a “Orquestra das Diretas”. Engajada no movimento, a OSMC começou a tocar, também, em outras capitais nacionais.
De acordo com o maestro e diretor artístico Victor Hugo Toro, o repertório foi escolhido a partir de sua popularidade. “Foi o maestro Benito Juarez quem escolheu. O programa é um programa basicamente popular. Faz sentido, é um concerto ideal para 1,5 milhão de pessoas”. Além disso, ele também detalhou um pouco sobre a participação da orquestra no movimento e o que tal repertório escolhido pelo maestro representa: “Importante salientar que, primeiro que não é só um concerto, foram várias apresentações ao redor. E segundo que não era um concerto da Orquestra, era a participação da Sinfônica em algo muito maior, um evento muito maior que procurava coisas maiores. Ele escolheu, me parece que bastante inteligentemente, peças muito populares, muito palatáveis para pessoas que talvez nunca tinham escutado uma orquestra, para pessoas que iam pegar, pela primeira vez, essa ideia e pegar também uma parte popular. Brasileira, popular. Imagino que, claro, dentro de toda a situação, tocar uma valsa de Strauss pode parecer fora de contexto mas, por outro lado, era uma música popular que as pessoas gostavam e estava chamando mais pessoas e imagino a festa que foi quando tocaram as peças brasileiras também.
A participação da Orquestra em um movimento político foi caracterizada pelo maestro como algo interessante. Segundo ele, a participação resultou em momentos que marcaram a história da Orquestra e definiram sua imagem na sociedade. “Surpreende que uma orquestra sinfônica esteja nessa situação. Pode-se imaginar cantores populares, pode-se imaginar poetas, pode-se imaginar atores globais, mas imagina-se uma orquestra tocando nesse dia. A mim parecia interessante, primeiro, por vários motivos. Primeiro porque os músicos, as pessoas veem as orquestras e veem os músicos, mas músicos também são cidadãos e cidadãs, são pessoas da sociedade, se envolvem com ela, têm opiniões e fazem sua parte com o que eles sabem fazer, que é tocar música. Me pareceu muito interessante que na época, a orquestra decidiu não ficar só na tranquilidade da temporada sinfônica e decidiu tomar uma posição firme, uma posição política, a respeito de situações importantes da sociedade brasileira dos anos 80. Decidiu não ficar fora dessa discussão, tentar participar também”.
Embora não seja natural de Campinas ou até mesmo brasileiro, Victor Hugo Toro, chileno, fala sobre a Orquestra com orgulho: “Como chileno, como latino-americano, me dá muito orgulho ser o líder desse grupo que decidiu tomar uma posição em um momento da história contemporânea do Brasil. Quando vejo esse momento, o que eu vejo é um Brasil unido, eu vejo que a orquestra colaborou em um momento em que o Brasil estava unido a uma ideia comum. O movimento suprapartidário das Diretas Já, demonstrou que a sociedade brasileira podia unir-se perante objetivos importantes, perante ideias que definiriam seu rumo na sociedade. E que a orquestra tenha participado disso, é um elemento de honra, importantíssimo pro momento. Há uma coisa histórica que você tem que escolher: ou soma, ou some, e a orquestra decidiu somar, decidiu estar ali. É fundamental”.
Em 2019, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) concedeu à Orquestra Sinfônica de Campinas a chancela de Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade.
Música como um elemento de protesto
De acordo com Michel Mendes, historiador, professor, músico e mestre em letras clássicas com especialidade em latim pela Unicamp, a música sempre foi muito utilizada como forma de protesto. “A gente tem na história diversos momentos em que a música erudita vai ser utilizada de uma maneira que represente alguma insatisfação. Nós temos, por exemplo, no final do século XII, o concerto do Händel, no período barroco ainda, em que ele protestou contra a demissão de músicos da orquestra dele. Ia haver ali um corte de verbas pra orquestra da qual ele era responsável e ele compôs uma obra que chama 'O último concerto', em que ele compõe de uma forma inédita na qual a orquestra vai se reduzindo. Então, a cada parte da música, os naipes da orquestra vão saindo, até que resta, no final, um músico só, tocando uma parte final. É um protesto que traz essa forma também dinâmica de representação dos músicos saindo literalmente do palco enquanto a música é executada por cada vez menos músicos”. Michel afirmou, também, que músicos como Schönberg e Tchaikovsky buscavam uma maior libertação artística e traziam novos conceitos sociais e políticos em suas músicas, combatendo tonalidades e limitações impostas pela Academia. “Temos ainda outro exemplo famoso que é o Mozart, que é um dos que inaugura o período clássico da música, que foi revolucionário ao compor óperas em alemão, que era uma língua que os próprios alemães diziam que não servia para ópera, que a regra era fazer em italiano. Portanto, são exemplos que aparecem dando força a ideias através da música. Não precisa ter a letra necessariamente relacionada com o que está sendo combatido, mas a própria forma de composição que acaba revelando algumas questões assim. O simbolismo de uma orquestra pode se adaptar a muitas situações. Você tem a questão da relação do maestro com os músicos, você tem o repertório, que pode trazer ali um significado também político e de rompimento de alguma estética. A música é uma forma interessante e bastante complexa de protesto quando vai ser utilizada, desde a música produzida pelo povo, que a gente pode ter alguns estilos mais populares, até uma música erudita” afirmou.
Com relação às músicas nacionais diretamente ligadas ao período ditatorial, o historiador comentou sobre seu impacto com mais detalhes: “A gente pega o período da ditadura a gente tem o movimento da Tropicália a qual eles (os cantores) pertencem e que tinha músicas que não eram, no início, necessariamente de protesto. Elas eram músicas que falavam de tudo, como amor, relacionamentos, pensamentos filosóficos, mas elas se encaixavam naquele momento, muito bem, na situação política, em uma análise, uma reflexão da situação política. O movimento da Tropicália teve bastante força porque ele não nasceu como movimento revolucionário, foi entendido assim e daí os próprios compositores compraram a ideia, acharam que valia a pena contribuir dessa forma. Tanto é que Caetano Veloso e Chico Buarque se exilaram nesse período. Gilberto Gil, também. E nós temos letras que não vão falar diretamente da ditadura, não vão falar dos políticos e da censura abertamente. Não citam fatos específicos, mas trazem a temática que estava em jogo naquela época: liberdade vs limitação. Então, eles podiam transportar para outras áreas. E nesse sentido, então, que as pessoas vão entender como forma de protesto e vão adotar. O Raul Seixas também colocava questões interessantes na música dele. A censura geralmente não entendia muito a questão e deixava passar. Ele até tinha menos problemas com isso, mas ele não é da Tropicália, era o início do rock nacional. É interessante perceber que mesmo dentro do movimento Tropicália teve atritos com os CTC’s, que eram os movimentos tradicionais de cultura. Eles falavam de uma produção musical, teatral, mais focada em elementos nacionais e tinha que ser puramente nacional, era um movimento que nasceu como movimento de protesto então era bem mais radical e não aceitava a estética musical do Tropicalismo, que trazia os elementos do rock inglês, da música norte-americana, que era uma guitarra elétrica, o baixo elétrico, bateria. O Caetano Veloso quando se apresentou no festival de 64, ele se apresentou como os Beat Boys, que inclusive é um nome inglês. Então essa estética musical significava pros grupos nacionalistas um desrespeito. Usar uma guitarra elétrica pro CTC era errado, não tem nem letra envolvida; tocar um determinado instrumento trazia um simbolismo. Se pegar países como a Escócia, que tiveram proibições também de instrumentos como a gaita de fole, a Inglaterra proibiu no período de dominação que os escoceses tocassem a gaita de fole, porque pra eles era um instrumento que exaltava o nacionalismo escocês e eles tinham que refrear isso. A Tropicália e essa música que quebra padrões, aí no caso também com as letras além da estética, se encaixava muito bem naquele momento meio que dizendo o que as pessoas queriam dizer mas não podiam, então pela música era permitido”.
PUC-Campinas
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| Apresentação da OSMC, sob a regência de Victor Hugo Toro |
O início dos concertos se deu com o Hino Nacional, acompanhado pelo canto da própria plateia entusiasmada. O restante do programa contou com a apresentação de obras de Ludwig van Beethoven (Sinfonia Nº 5, Op. 67, Mov. I), Nikolai Rimsky-Korsakov (Capriccio Espagnol, Op. 34), o campineiro Carlos Gomes (Alvorada de “Lo Schiavo”), Johann Strauss (Vozes da Primavera e Valsa do Imperador), Geraldo Vandré (Pra não dizer que não falei das flores), Moraes Moreira (Frevo das Diretas) e uma coletânea de Milton Nascimento (Travessia; Maria, Maria; Coração de Estudante; Menestrel das Alagoas; Os Bailes da Vida).
Recepcionada com longos períodos de aplausos entre uma música e outra e mostrando-se sempre agradecida, a OSMC concedeu ao público momentos emocionantes como a abertura com o Hino Nacional e os discursos feitos pelo maestro Victor Hugo Toro, que apresentou a todos os músicos da Orquestra os quais tocaram na apresentação feita no comício e continuam em atividade quase 40 anos depois. Durante a apresentação de “Pra não dizer que não falei das flores”, ao sinal do maestro, a plateia cantou o refrão em coro. Aplaudidos de pé durante alguns minutos no final do concerto de domingo, o maestro e os músicos fizeram um bis e fecharam a apresentação com “Aquarela do Brasil”.
Com uma plateia diversa, o concerto contou com a participação de crianças, jovens, adultos e idosos. Bianca (14), Mel (15) e Eugênio (15), foram ao concerto por já possuírem gosto por música clássica. “Eu gosto desse tipo de música e acho que a gente tinha que participar mais de eventos como esse na nossa cidade” disse Bianca. “Eu gostei muito. Particularmente, eu gostei mais da primeira parte que eram as músicas mais clássicas, mas eu também gostei dessa mistura com músicas mais modernas na orquestra” continuou. Com Mel, não foi diferente: “eu vim porque eu gosto desse tipo de música e pra incentivar a música e a cultura no nosso país. Eu gostei muito, mas eu gostei mais da primeira parte também, mesmo que o foco estivesse na segunda com relação ao movimento das Diretas Já”. Eugênio, por fim, afirmou já ter o hábito de frequentar concertos e elogiou o programa: “Eu gostei, é inovador, é inédito. Não é todo concerto que traz esses programas”. Maria Aparecida Martins Rangel, 76, professora aposentada da rede estadual, também não economizou seus elogios e defendeu o espírito de nacionalidade que a população brasileira deve ter: “O início do concerto foi um espetáculo maravilhoso, inesperado. Esse Hino Nacional orquestrado, cantado com o entusiasmo que eu vi hoje, é coisa de realmente arrebatar o coração. Isso devia se repetir mais vezes porque nós precisamos desse espírito de nacionalidade, de brasilidade. O concerto em si foi maravilhoso, as valsas davam vontade de sair valsando, mesmo, e o final com a nossa Aquarela do Brasil foi espetacular. Enfim, isso devia se repetir muito mais vezes”.
A Orquestra e as Diretas
Há 35 anos, em abril de 1984, 1,5 milhão de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em um comício do movimento suprapartidário “Diretas Já”. A passeata pró-eleições diretas foi realizada na Praça da Sé e recebeu a Orquestra Sinfônica de Campinas, regida pelo maestro Benito Juarez. Devido a esse evento, a Orquestra passou a ser conhecida como a “Orquestra das Diretas”. Engajada no movimento, a OSMC começou a tocar, também, em outras capitais nacionais.
De acordo com o maestro e diretor artístico Victor Hugo Toro, o repertório foi escolhido a partir de sua popularidade. “Foi o maestro Benito Juarez quem escolheu. O programa é um programa basicamente popular. Faz sentido, é um concerto ideal para 1,5 milhão de pessoas”. Além disso, ele também detalhou um pouco sobre a participação da orquestra no movimento e o que tal repertório escolhido pelo maestro representa: “Importante salientar que, primeiro que não é só um concerto, foram várias apresentações ao redor. E segundo que não era um concerto da Orquestra, era a participação da Sinfônica em algo muito maior, um evento muito maior que procurava coisas maiores. Ele escolheu, me parece que bastante inteligentemente, peças muito populares, muito palatáveis para pessoas que talvez nunca tinham escutado uma orquestra, para pessoas que iam pegar, pela primeira vez, essa ideia e pegar também uma parte popular. Brasileira, popular. Imagino que, claro, dentro de toda a situação, tocar uma valsa de Strauss pode parecer fora de contexto mas, por outro lado, era uma música popular que as pessoas gostavam e estava chamando mais pessoas e imagino a festa que foi quando tocaram as peças brasileiras também.
A participação da Orquestra em um movimento político foi caracterizada pelo maestro como algo interessante. Segundo ele, a participação resultou em momentos que marcaram a história da Orquestra e definiram sua imagem na sociedade. “Surpreende que uma orquestra sinfônica esteja nessa situação. Pode-se imaginar cantores populares, pode-se imaginar poetas, pode-se imaginar atores globais, mas imagina-se uma orquestra tocando nesse dia. A mim parecia interessante, primeiro, por vários motivos. Primeiro porque os músicos, as pessoas veem as orquestras e veem os músicos, mas músicos também são cidadãos e cidadãs, são pessoas da sociedade, se envolvem com ela, têm opiniões e fazem sua parte com o que eles sabem fazer, que é tocar música. Me pareceu muito interessante que na época, a orquestra decidiu não ficar só na tranquilidade da temporada sinfônica e decidiu tomar uma posição firme, uma posição política, a respeito de situações importantes da sociedade brasileira dos anos 80. Decidiu não ficar fora dessa discussão, tentar participar também”.
Embora não seja natural de Campinas ou até mesmo brasileiro, Victor Hugo Toro, chileno, fala sobre a Orquestra com orgulho: “Como chileno, como latino-americano, me dá muito orgulho ser o líder desse grupo que decidiu tomar uma posição em um momento da história contemporânea do Brasil. Quando vejo esse momento, o que eu vejo é um Brasil unido, eu vejo que a orquestra colaborou em um momento em que o Brasil estava unido a uma ideia comum. O movimento suprapartidário das Diretas Já, demonstrou que a sociedade brasileira podia unir-se perante objetivos importantes, perante ideias que definiriam seu rumo na sociedade. E que a orquestra tenha participado disso, é um elemento de honra, importantíssimo pro momento. Há uma coisa histórica que você tem que escolher: ou soma, ou some, e a orquestra decidiu somar, decidiu estar ali. É fundamental”.
Em 2019, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) concedeu à Orquestra Sinfônica de Campinas a chancela de Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade.
Música como um elemento de protesto
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| O historiador Michel Mendes: "A música é uma forma interessante e bastante complexa de protesto" |
Com relação às músicas nacionais diretamente ligadas ao período ditatorial, o historiador comentou sobre seu impacto com mais detalhes: “A gente pega o período da ditadura a gente tem o movimento da Tropicália a qual eles (os cantores) pertencem e que tinha músicas que não eram, no início, necessariamente de protesto. Elas eram músicas que falavam de tudo, como amor, relacionamentos, pensamentos filosóficos, mas elas se encaixavam naquele momento, muito bem, na situação política, em uma análise, uma reflexão da situação política. O movimento da Tropicália teve bastante força porque ele não nasceu como movimento revolucionário, foi entendido assim e daí os próprios compositores compraram a ideia, acharam que valia a pena contribuir dessa forma. Tanto é que Caetano Veloso e Chico Buarque se exilaram nesse período. Gilberto Gil, também. E nós temos letras que não vão falar diretamente da ditadura, não vão falar dos políticos e da censura abertamente. Não citam fatos específicos, mas trazem a temática que estava em jogo naquela época: liberdade vs limitação. Então, eles podiam transportar para outras áreas. E nesse sentido, então, que as pessoas vão entender como forma de protesto e vão adotar. O Raul Seixas também colocava questões interessantes na música dele. A censura geralmente não entendia muito a questão e deixava passar. Ele até tinha menos problemas com isso, mas ele não é da Tropicália, era o início do rock nacional. É interessante perceber que mesmo dentro do movimento Tropicália teve atritos com os CTC’s, que eram os movimentos tradicionais de cultura. Eles falavam de uma produção musical, teatral, mais focada em elementos nacionais e tinha que ser puramente nacional, era um movimento que nasceu como movimento de protesto então era bem mais radical e não aceitava a estética musical do Tropicalismo, que trazia os elementos do rock inglês, da música norte-americana, que era uma guitarra elétrica, o baixo elétrico, bateria. O Caetano Veloso quando se apresentou no festival de 64, ele se apresentou como os Beat Boys, que inclusive é um nome inglês. Então essa estética musical significava pros grupos nacionalistas um desrespeito. Usar uma guitarra elétrica pro CTC era errado, não tem nem letra envolvida; tocar um determinado instrumento trazia um simbolismo. Se pegar países como a Escócia, que tiveram proibições também de instrumentos como a gaita de fole, a Inglaterra proibiu no período de dominação que os escoceses tocassem a gaita de fole, porque pra eles era um instrumento que exaltava o nacionalismo escocês e eles tinham que refrear isso. A Tropicália e essa música que quebra padrões, aí no caso também com as letras além da estética, se encaixava muito bem naquele momento meio que dizendo o que as pessoas queriam dizer mas não podiam, então pela música era permitido”.
quarta-feira, maio 01, 2019
Quando a sala de aula é na selva
Gustavo Ferreira
PUC-Campinas
O sociólogo Duarcides Ferreira Mariosa, de 58 anos, é um dos coordenadores do projeto Biotupé, que realiza estudos na reserva de Desenvolvimento Sustentável (REDES) do Tupé, na zona rural do município de Manaus. A iniciativa visa promover o Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável como estratégia de atuação.
Formado em Ciências Sociais pela Unicamp e com mestrado e doutorado em Sociologia pela mesma universidade, Mariosa é atualmente professor na PUC-Campinas e realiza, desde 2001, estudos na reserva de desenvolvimento sustentável do Biotupé.
Duarcides todo ano se aventura a levar alguns alunos, familiares e professores, em uma viagem para a reserva. A viagem tem como objetivo estudar e aprender mais sobre a flora, a fauna e as comunidades que lá vivem
O que é o projeto Biotupé?
Duarcides Ferreira Mariosa - O projeto Biotupé é uma iniciativa do Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (INPA). Eles trabalham numa reserva de desenvolvimento sustentável que fica ao lado de Manaus. Ali existe um grupo de biólogos que estavam fazendo pesquisas ali dentro, e a comunidade ficou apavorada quando foi feito o decreto e entrou ali uma reserva. Então, eles não sabiam exatamente o que eles poderiam fazer ou deixar de fazer, daí esses pesquisadores do INPA foram procurados para poder orientá-los nessa questão de, numa área de proteção ambiental você tem uma população residente então qual que é a dinâmica em termos legais, em termos econômicos, sociais que eles podem operar lá. E nisso começou o projeto, de 2000 para 2001, foi criado um grupo de pesquisa no CNPQ e começou a aparecer pesquisadores interessados a trabalhar. E eu entrei no projeto em 2007, a convite de um colega, porque eles estavam tendo dificuldade nas questões de natureza sociológica, biólogo tem facilidade para lidar com bichos e plantas, mas com pessoas é um pouco mais complicado. Aí eles me chamaram eu fui lá como uma primeira reunião e estou lá até hoje.
Como funciona o trabalho dos integrantes?
Duarcides Ferreira Mariosa - Atualmente nós somos pesquisadores, 32 das mais diferentes formações, tem gente que é biólogo, tem o pessoal da botânica, tem psicólogo, tem educador, no meu caso sociólogo, tem várias atividades. Então dentro dessa área de reserva, que é bom a gente esclarecer que uma reserva de desenvolvimento sustentável, ela prevê dentro da sua constituição a possibilidade de você desenvolver pesquisas no sentido de entender a melhor forma de organizar o espaço as comunidades humanas sem agredir ou sem impactar negativamente o ambiente. Então, acaba que lá tem uma parte da vida, uma dinâmica deles que a gente investiga. Então, nesse momento agora, eu estou desenvolvendo pesquisas da economia solidária, eu já fiz pesquisas na área de saúde, de organização comunitária, cada ano é uma história.
Qual é seu papel no projeto?
Duarcides Ferreira Mariosa - Eu sou coordenador dos estudos comunitários, então minha parte nesse espaço de pesquisadores é a de fazer levantamentos, fazer pesquisas, fazer estudos, dar cursos, no que se diz respeito a essa relação entre os indivíduos, o modo de vida deles, o ambiente e a economia. A gente está preocupado, por exemplo, com a utilização dos recursos florestais não madeireiros, com a utilização turística dos espaços, da distribuição espacial deles. Então, a gente lembra que aquelas pessoas não podem ser esquecidas ou excluídas, porque em algum lugar ou algum tempo alguém queimou a floresta deles.
Como os alunos podem ajudar na reserva?
Duarcides Ferreira Mariosa - Os alunos participam do projeto em 3 níveis. A gente tem o pessoal que faz um curso, geralmente no começo de julho a gente tem uma disciplina que é oferecida para os alunos de pós-graduação no INPA, e nesse curso eles fazem toda discussão teórica, depois nós vamos para campo, daí são produzido artigos, que são apresentado em congresso, publicados, coisa e tal. Então esses são alunos de pós graduação, eles recebem certificado, então uma disciplina que vai pro currículo deles de pós e doutorado. Os alunos que eu levo daqui participam da parte da pesquisa, que seria então o contato com a comunidade ou com a área da reserva, e ali eles aplicam os instrumentos de pesquisa, e eles são hora quantitativo, hora entrevista qualitativas, então eles têm um contato com a população. Geralmente a gente fica 4 a 5 dias dentro da comunidade, visitando o espaço, daí fica a critérios deles se num futuro eles querem escrever um artigo ou publicar fotos
Como o projeto afeta a vida das pessoas que moram lá?
Duarcides Ferreira Mariosa - A gente quer estudar e utilizar os recursos que temos na área de pesquisa, para que a gente contribua para que as pessoas de lá possam ter uma qualidade de vida melhor, mas isso não impositivo, a gente dá para eles dados como: “aqui esse seria o melhor tipo de construção”, “vocês precisam se organizar para fazer uma reivindicação na prefeitura”, “vocês precisam de um espaço para produção econômica”, então cada dentro de sua área estuda, levanta os dados, e os oferece, se ele vão usar ou não fica a critério deles
Quais cuidados são tomados nesse choque de pessoas daqui com pessoas de lá?
Duarcides Ferreira Mariosa - Então, as pessoas saem daqui achando que lá eles são pobres coitados, desinformados, vulneráveis, carentes ou mal informadas, e que você lá é o grande salvador que irá levar a civilização para eles. Então uma das coisas que as pessoas que saem daqui dizem no final da viagem é:” eu cheguei aqui achando que tinha muito mais coisa para ensinar, e saio daqui aprendendo muito mais, eu levo muito mais do que eu trouxe”. Outra coisa é a questão do tempo que é impressionante, parece que um dia lá demora uma semana para passar, a intensidade lá é diferente, pois eles estão sentindo coisas que eles nunca sentiram, e tempo não é duração, e sim intensidade. Fora coisas como se habituar com a vida de lá, uma coisa é você dormir na sua cama quentinha, outra é dormir numa rede dentro de um barco no meio da selva amazônica
Quais foram os principais resultados dos projetos?
Duarcides Ferreira Mariosa - Existem diversos destaques que posso falar, existem diversos projetos que receberam prêmios estaduais no Amazonas, sobre o impacto em relação a qualidade da água, a importância do saneamento. Nós tivemos também alguns estudos que foram bem reveladores da estrutura econômica deles, que serviu para fazer um documento oficial que se chama Plano de Manejo, onde a secretaria utilizou dos nossos dados para saber o que podia ou não fazer
Qual foi a importância do projeto que você trabalhou de “caracterização econômica, demográfica e ambiental da população”?
Duarcides Ferreira Mariosa - Esse ainda é um projeto que ainda está em desenvolvimento. O que estamos trabalhando nele é: “Quais são as condições de vida da população?” Um exemplo é o jovem, que aos 15 anos vai para Manaus, e volta aos 33. E com esse estudo queremos saber o do porque ele sair e voltar. Esse foi um estudo muito interessante, que nós conseguimos através do levantamento de dado e das entrevistas saber como funciona a tentativa de migração do garoto dessa reserva para a cidade grande por querer estudar e trabalhar. E quando ele chega lá, a vida na floresta é diferente da vida urbana, mesmo que ao chegar na cidade grande ele acaba ficando lá por conta do deslumbramento. Mas, ao passar do tempo, ele vê que a cidade suga muito da pessoa, em relação a liberdade dele, as atividades, exigência sobre trabalho, que no caso deles geralmente é desqualificado, muitos acabam ficando atrás por falta de estudo. E ele vê que na reserva, apesar de não ter a renda e movimento como na cidade grande, ele também não tem as preocupações da vida urbana, e com isso numa determinada idade ele retorna. Mesmo os que conseguem se manter na cidade grande e constituir família, depois de aposentados, acabam voltando, ou pelo menos estabelecer ali uma área de lazer para manter contato. É muito importante a gente entender esses processos pendulares, porque eles saem dali e porque eles retornam.
O outro estudo foi sobre diabete mellitus tipo 2, que acontece 4 vezes mais nas mulheres do que nos homens, que nos fez perceber que o estilo de vida que eles têm lá, pra mulher é mais impactante na saúde que para o homem.
Quem são as pessoas por trás do projeto?
Duarcides Ferreira Mariosa - São os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas, eles tão no departamento de biologia, água doce e pesca interior, que é o grupo do INPA que fazem pesquisas na área da Amazônia envolvendo geralmente a parte de biologia, recentemente eles começaram com questões de natureza climática. E a gente está trabalhando com estudos comunitários porque quando se fala da questão ambiental você tem que imaginar que dentro do Amazonas, ou dentro de qualquer reserva, você tem gente, então as pessoas são aquelas que conservam ou vão depredar o ambiente. Então, se você está pensando alguma coisa dentro de preservação, você tem que levar em consideração as características humanas. Por isso que foi agregado outros profissionais, porque biólogo entende de bicho e de planta, mas como digo, gente é uma coisa complicada
Como funciona a viagem?
Duarcides Ferreira Mariosa - Os alunos de pós graduação se matriculam no curso no INPA. Eles fazem a parte teórica, e a parte prática é uma pesquisa de campo que são aplicados questionários e são feitos entrevistas e gravadas entrevistas, que dai os alunos daqui participam, não fica restrito só aos alunos. A atividade não é da PUC, e sim do INPA, as pessoas saem daqui a convite do INPA. Então vai alunos daqui da PUC, da UNICAMP, da UNIP, vai pai de aluno, namorada, namorado, quem quiser ir pode ir.
Já sobre o trajeto, você pega o avião, desce em Manaus, em Manaus tem um transporte que te leva até o barco, barco que nos leva até as comunidades. Você fica no barco durante o período da pesquisa, com isso você pode ir numa comunidade ou em várias comunidades. Terminada a pesquisa, você vem pro centro, a gente tem uma visita no INPA, depois a entrega dos certificados e voltados, tudo isso num período de 10 a 12 dias
Como funciona para participar do projeto?
Duarcides Ferreira Mariosa - Tem um e-mail, viagemaoprojetobiotupe@gmail.com, você envia uma mensagem para esse endereço dando seus dados e se você está vinculado alguma universidade e qual seu curso. Com isso você entra numa lista de espera, e mais ou menos em fevereiro ou março, eles nos dão uma lista dos projetos aprovados e quais as datas. Com isso, retornamos os emails as pessoas, perguntando se estão interessadas. Damos o valor completo ao participante, hotel, tempo de permanência, os alunos geralmente pagam isso em março, abril, maio e junho, fora a passagem, que fica a critério do aluno de como pagar.
PUC-Campinas
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| O sociólogo Duarcides Ferreira Mariosa |
Formado em Ciências Sociais pela Unicamp e com mestrado e doutorado em Sociologia pela mesma universidade, Mariosa é atualmente professor na PUC-Campinas e realiza, desde 2001, estudos na reserva de desenvolvimento sustentável do Biotupé.
Duarcides todo ano se aventura a levar alguns alunos, familiares e professores, em uma viagem para a reserva. A viagem tem como objetivo estudar e aprender mais sobre a flora, a fauna e as comunidades que lá vivem
O que é o projeto Biotupé?
Duarcides Ferreira Mariosa - O projeto Biotupé é uma iniciativa do Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (INPA). Eles trabalham numa reserva de desenvolvimento sustentável que fica ao lado de Manaus. Ali existe um grupo de biólogos que estavam fazendo pesquisas ali dentro, e a comunidade ficou apavorada quando foi feito o decreto e entrou ali uma reserva. Então, eles não sabiam exatamente o que eles poderiam fazer ou deixar de fazer, daí esses pesquisadores do INPA foram procurados para poder orientá-los nessa questão de, numa área de proteção ambiental você tem uma população residente então qual que é a dinâmica em termos legais, em termos econômicos, sociais que eles podem operar lá. E nisso começou o projeto, de 2000 para 2001, foi criado um grupo de pesquisa no CNPQ e começou a aparecer pesquisadores interessados a trabalhar. E eu entrei no projeto em 2007, a convite de um colega, porque eles estavam tendo dificuldade nas questões de natureza sociológica, biólogo tem facilidade para lidar com bichos e plantas, mas com pessoas é um pouco mais complicado. Aí eles me chamaram eu fui lá como uma primeira reunião e estou lá até hoje.
Como funciona o trabalho dos integrantes?
Duarcides Ferreira Mariosa - Atualmente nós somos pesquisadores, 32 das mais diferentes formações, tem gente que é biólogo, tem o pessoal da botânica, tem psicólogo, tem educador, no meu caso sociólogo, tem várias atividades. Então dentro dessa área de reserva, que é bom a gente esclarecer que uma reserva de desenvolvimento sustentável, ela prevê dentro da sua constituição a possibilidade de você desenvolver pesquisas no sentido de entender a melhor forma de organizar o espaço as comunidades humanas sem agredir ou sem impactar negativamente o ambiente. Então, acaba que lá tem uma parte da vida, uma dinâmica deles que a gente investiga. Então, nesse momento agora, eu estou desenvolvendo pesquisas da economia solidária, eu já fiz pesquisas na área de saúde, de organização comunitária, cada ano é uma história.
Qual é seu papel no projeto?
Duarcides Ferreira Mariosa - Eu sou coordenador dos estudos comunitários, então minha parte nesse espaço de pesquisadores é a de fazer levantamentos, fazer pesquisas, fazer estudos, dar cursos, no que se diz respeito a essa relação entre os indivíduos, o modo de vida deles, o ambiente e a economia. A gente está preocupado, por exemplo, com a utilização dos recursos florestais não madeireiros, com a utilização turística dos espaços, da distribuição espacial deles. Então, a gente lembra que aquelas pessoas não podem ser esquecidas ou excluídas, porque em algum lugar ou algum tempo alguém queimou a floresta deles.
Como os alunos podem ajudar na reserva?
Duarcides Ferreira Mariosa - Os alunos participam do projeto em 3 níveis. A gente tem o pessoal que faz um curso, geralmente no começo de julho a gente tem uma disciplina que é oferecida para os alunos de pós-graduação no INPA, e nesse curso eles fazem toda discussão teórica, depois nós vamos para campo, daí são produzido artigos, que são apresentado em congresso, publicados, coisa e tal. Então esses são alunos de pós graduação, eles recebem certificado, então uma disciplina que vai pro currículo deles de pós e doutorado. Os alunos que eu levo daqui participam da parte da pesquisa, que seria então o contato com a comunidade ou com a área da reserva, e ali eles aplicam os instrumentos de pesquisa, e eles são hora quantitativo, hora entrevista qualitativas, então eles têm um contato com a população. Geralmente a gente fica 4 a 5 dias dentro da comunidade, visitando o espaço, daí fica a critérios deles se num futuro eles querem escrever um artigo ou publicar fotos
Como o projeto afeta a vida das pessoas que moram lá?
Duarcides Ferreira Mariosa - A gente quer estudar e utilizar os recursos que temos na área de pesquisa, para que a gente contribua para que as pessoas de lá possam ter uma qualidade de vida melhor, mas isso não impositivo, a gente dá para eles dados como: “aqui esse seria o melhor tipo de construção”, “vocês precisam se organizar para fazer uma reivindicação na prefeitura”, “vocês precisam de um espaço para produção econômica”, então cada dentro de sua área estuda, levanta os dados, e os oferece, se ele vão usar ou não fica a critério deles
Quais cuidados são tomados nesse choque de pessoas daqui com pessoas de lá?
Duarcides Ferreira Mariosa - Então, as pessoas saem daqui achando que lá eles são pobres coitados, desinformados, vulneráveis, carentes ou mal informadas, e que você lá é o grande salvador que irá levar a civilização para eles. Então uma das coisas que as pessoas que saem daqui dizem no final da viagem é:” eu cheguei aqui achando que tinha muito mais coisa para ensinar, e saio daqui aprendendo muito mais, eu levo muito mais do que eu trouxe”. Outra coisa é a questão do tempo que é impressionante, parece que um dia lá demora uma semana para passar, a intensidade lá é diferente, pois eles estão sentindo coisas que eles nunca sentiram, e tempo não é duração, e sim intensidade. Fora coisas como se habituar com a vida de lá, uma coisa é você dormir na sua cama quentinha, outra é dormir numa rede dentro de um barco no meio da selva amazônica
Quais foram os principais resultados dos projetos?
Duarcides Ferreira Mariosa - Existem diversos destaques que posso falar, existem diversos projetos que receberam prêmios estaduais no Amazonas, sobre o impacto em relação a qualidade da água, a importância do saneamento. Nós tivemos também alguns estudos que foram bem reveladores da estrutura econômica deles, que serviu para fazer um documento oficial que se chama Plano de Manejo, onde a secretaria utilizou dos nossos dados para saber o que podia ou não fazer
Qual foi a importância do projeto que você trabalhou de “caracterização econômica, demográfica e ambiental da população”?
Duarcides Ferreira Mariosa - Esse ainda é um projeto que ainda está em desenvolvimento. O que estamos trabalhando nele é: “Quais são as condições de vida da população?” Um exemplo é o jovem, que aos 15 anos vai para Manaus, e volta aos 33. E com esse estudo queremos saber o do porque ele sair e voltar. Esse foi um estudo muito interessante, que nós conseguimos através do levantamento de dado e das entrevistas saber como funciona a tentativa de migração do garoto dessa reserva para a cidade grande por querer estudar e trabalhar. E quando ele chega lá, a vida na floresta é diferente da vida urbana, mesmo que ao chegar na cidade grande ele acaba ficando lá por conta do deslumbramento. Mas, ao passar do tempo, ele vê que a cidade suga muito da pessoa, em relação a liberdade dele, as atividades, exigência sobre trabalho, que no caso deles geralmente é desqualificado, muitos acabam ficando atrás por falta de estudo. E ele vê que na reserva, apesar de não ter a renda e movimento como na cidade grande, ele também não tem as preocupações da vida urbana, e com isso numa determinada idade ele retorna. Mesmo os que conseguem se manter na cidade grande e constituir família, depois de aposentados, acabam voltando, ou pelo menos estabelecer ali uma área de lazer para manter contato. É muito importante a gente entender esses processos pendulares, porque eles saem dali e porque eles retornam.
O outro estudo foi sobre diabete mellitus tipo 2, que acontece 4 vezes mais nas mulheres do que nos homens, que nos fez perceber que o estilo de vida que eles têm lá, pra mulher é mais impactante na saúde que para o homem.
Quem são as pessoas por trás do projeto?
Duarcides Ferreira Mariosa - São os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas, eles tão no departamento de biologia, água doce e pesca interior, que é o grupo do INPA que fazem pesquisas na área da Amazônia envolvendo geralmente a parte de biologia, recentemente eles começaram com questões de natureza climática. E a gente está trabalhando com estudos comunitários porque quando se fala da questão ambiental você tem que imaginar que dentro do Amazonas, ou dentro de qualquer reserva, você tem gente, então as pessoas são aquelas que conservam ou vão depredar o ambiente. Então, se você está pensando alguma coisa dentro de preservação, você tem que levar em consideração as características humanas. Por isso que foi agregado outros profissionais, porque biólogo entende de bicho e de planta, mas como digo, gente é uma coisa complicada
Como funciona a viagem?
Duarcides Ferreira Mariosa - Os alunos de pós graduação se matriculam no curso no INPA. Eles fazem a parte teórica, e a parte prática é uma pesquisa de campo que são aplicados questionários e são feitos entrevistas e gravadas entrevistas, que dai os alunos daqui participam, não fica restrito só aos alunos. A atividade não é da PUC, e sim do INPA, as pessoas saem daqui a convite do INPA. Então vai alunos daqui da PUC, da UNICAMP, da UNIP, vai pai de aluno, namorada, namorado, quem quiser ir pode ir.
Já sobre o trajeto, você pega o avião, desce em Manaus, em Manaus tem um transporte que te leva até o barco, barco que nos leva até as comunidades. Você fica no barco durante o período da pesquisa, com isso você pode ir numa comunidade ou em várias comunidades. Terminada a pesquisa, você vem pro centro, a gente tem uma visita no INPA, depois a entrega dos certificados e voltados, tudo isso num período de 10 a 12 dias
Como funciona para participar do projeto?
Duarcides Ferreira Mariosa - Tem um e-mail, viagemaoprojetobiotupe@gmail.com, você envia uma mensagem para esse endereço dando seus dados e se você está vinculado alguma universidade e qual seu curso. Com isso você entra numa lista de espera, e mais ou menos em fevereiro ou março, eles nos dão uma lista dos projetos aprovados e quais as datas. Com isso, retornamos os emails as pessoas, perguntando se estão interessadas. Damos o valor completo ao participante, hotel, tempo de permanência, os alunos geralmente pagam isso em março, abril, maio e junho, fora a passagem, que fica a critério do aluno de como pagar.
sábado, abril 27, 2019
Unicamp abre 50 vagas para meninas do ensino fundamental II
Bruna Niro
PUC-Campinas
O projeto “Meninas SuperCientistas”, criado por alunas e professoras da Unicamp, vai abrir 50 vagas para incentivar meninas que estão no ensino fundamental II a se tornarem cientistas. O evento acontecerá em quatro sábados de junho. Serão diversas atividades, oficinas, palestras e visitação ao Museu Aberto de Astronomia.
“Eu comecei a ver diversas postagens e compartilhamentos de um evento que aconteceria na USP em parceria com o projeto da UFSCar e eu achei muito legal. Já fiz vários eventos na Unicamp de divulgação cientifica e pensei que seria muito bom trazer esse evento”, disse Marcela Ferreira, de 20 anos, uma das organizadoras e aluna de Matemática Aplicada e Computacional na Unicamp.
As inscrições começaram no dia 23 de abril e irão até o dia 5 de maio no site: https://www.ime.unicamp.br/meninassupercientistas/
Para participar dos eventos basta estar matriculada em uma escola pública ou privada no ensino fundamental II, ter autorização de um responsável e disponibilidade para participar dos quatro dias do evento. “Caso haja mais de 50 inscritas, será feito um sorteio”, explicou Marcela Ferreira.
Atividades:
01/06/1019 – Abertura/ Formas de ingresso/ Exposição “Ela está em tudo”.
- Fantástico Mundo Matemático.
- Profa. Laura Rifo (Matemática).
- Profa. Eliana Amaral (Carreira).
08/06/2019 – Profa. Kelly Poldi (Matemática Aplicada).
- Profa. Gabriela Celani (Laboratório de Prototipagem).
- Profa. Ana Zei (Acelerador de partículas).
- Museu Exploratório de Ciências.
15/06/2019 – GAMUX.
- Nas asas do dragão.
- Museu Aberto de Astronomia.
As atividades serão das 9h às 17h, o transporte e alimentação estarão inclusos.
Organizadoras:
Profa. Dra. Anne Bronzi (IMECC-Unicamp).
Juliana Baiochi (IMECC-Unicamp).
Marcela Medicina Ferreira (IMECC-Unicamp).
Colaboradoras:
Julian Furtado Silva (FCM-Unicamp)
Luísa Ribeiro Bezerra (DCC-UFMG)
PUC-Campinas
O projeto “Meninas SuperCientistas”, criado por alunas e professoras da Unicamp, vai abrir 50 vagas para incentivar meninas que estão no ensino fundamental II a se tornarem cientistas. O evento acontecerá em quatro sábados de junho. Serão diversas atividades, oficinas, palestras e visitação ao Museu Aberto de Astronomia.
“Eu comecei a ver diversas postagens e compartilhamentos de um evento que aconteceria na USP em parceria com o projeto da UFSCar e eu achei muito legal. Já fiz vários eventos na Unicamp de divulgação cientifica e pensei que seria muito bom trazer esse evento”, disse Marcela Ferreira, de 20 anos, uma das organizadoras e aluna de Matemática Aplicada e Computacional na Unicamp.
As inscrições começaram no dia 23 de abril e irão até o dia 5 de maio no site: https://www.ime.unicamp.br/meninassupercientistas/
Para participar dos eventos basta estar matriculada em uma escola pública ou privada no ensino fundamental II, ter autorização de um responsável e disponibilidade para participar dos quatro dias do evento. “Caso haja mais de 50 inscritas, será feito um sorteio”, explicou Marcela Ferreira.
Atividades:
01/06/1019 – Abertura/ Formas de ingresso/ Exposição “Ela está em tudo”.
- Fantástico Mundo Matemático.
- Profa. Laura Rifo (Matemática).
- Profa. Eliana Amaral (Carreira).
08/06/2019 – Profa. Kelly Poldi (Matemática Aplicada).
- Profa. Gabriela Celani (Laboratório de Prototipagem).
- Profa. Ana Zei (Acelerador de partículas).
- Museu Exploratório de Ciências.
15/06/2019 – GAMUX.
- Nas asas do dragão.
- Museu Aberto de Astronomia.
As atividades serão das 9h às 17h, o transporte e alimentação estarão inclusos.
Organizadoras:
Profa. Dra. Anne Bronzi (IMECC-Unicamp).
Juliana Baiochi (IMECC-Unicamp).
Marcela Medicina Ferreira (IMECC-Unicamp).
Colaboradoras:
Julian Furtado Silva (FCM-Unicamp)
Luísa Ribeiro Bezerra (DCC-UFMG)
domingo, abril 21, 2019
“Não se comemora o Dia do Índio”: Primeira turma indígena da Unicamp aposta em Semana Acadêmica para dialogar com estudantes
Bárbara C. R. Marques
PUC-Campinas
A comunidade indígena da Unicamp, em parceria com organizações estudantis como a Rede de Apoio Ubuntu, a Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), Pró Reitoria de Graduação, Comvest, e o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), realizou, entre os dias 15, 16 e 17 de abril, a primeira Semana Acadêmica Indígena. O evento visou mobilizar toda a coletividade estudantil a lutar pela causa indígena.
A data foi escolhida devido à proximidade do Dia do Índio (19). Entretanto, não se trata de uma celebração: “Não se comemora o dia do índio. Se afirma nossa cultura de várias maneiras. É um dia que, querendo ou não, estigmatiza ainda mais o índigena, porque nas escolas todos se vestem de índio, com tracinhos no rosto e cocar e saem cantando música da Xuxa. Isso não tem nada ver, é muito preconceituoso e estigmatizador. O dia 19 é um dia de luta”, diz Naldo Tukano, estudante de Linguística. “Soa como esnobar, ridicularizar nossa realidade” complementa Arlindo Alemão Gregório, estudante de Engenharia Elétrica. Ambos integraram a organização do evento.
A Semana Acadêmica Indígena existe justamente para tornar essa data mais voltada para conscientização e protesto, abordando as questões educacional e social. João, da etnia Baniwa, inicia sua fala em uma das palestras com a seguinte frase: “Nós, indígenas, também somos sociedade brasileira”. O objetivo principal é dialogar com a universidade, desmistificando a figura do indígena. “Nós acadêmicos temos não só a obrigação de fazer isso, de buscar dialogar com a própria Unicamp, mas com a própria sociedade. Para eles, somos um tipo de estrangeiros, mas na verdade não somos” diz Arlindo Gregório.
De acordo com a organização, os objetivos da Semana Acadêmica Indígena vão desde desmitificar a figura do indígena até aumentar o ingresso dos estudantes indígenas. Indígenas da UFscar foram chamados para ajudar na organização e participar do evento, uma vez que essa experiência de mobilização indígena já ocorre há cerca de 5 anos dentro da Universidade Federal de São Carlos. Um dos principais focos também é a questão de permanência indígena. “Não queremos estigmatizar ainda mais o indígena. Querendo ou não, a sociedade acha que o indígena é uma figura só. No Brasil, há vários povos indígenas”, afirmou Naldo Tukano.
Naldo Tukano também acredita que a culpa da ignorância em relação aos indígenas seja do sistema. “Existem pessoas que não nos compreendem por não terem a informação correta. Não é culpa deles, é culpa do sistema que ensina a ser preconceituoso. É lógico que tem pessoas que mesmo sabendo, tendo informação, ela continua sendo assim porque ela é ignorante e quer ser desse jeito.” Ele ainda ressalta que, dentro do sistema acadêmico, os indígenas vem tentando se adaptar à situação. O sentimento de comunhão com os outros indígenas os ajudam a superar as dificuldades. “Da nossa maneira, dentro do diálogo, vamos fazendo com que esses paradigmas sejam quebrados” diz Arlindo Gregório.
Uma das mudanças apontadas por Naldo Tukano é a mudança de linguagem: o uso da palavra “indígena” ao invés de “índio”. “O problema da palavra ‘índio’ é que ela tem uma carga totalmente negativa e pesada. Por trás dela tem todo um genocídio, etnocídio, dentre outras coisas. Sem falar que ‘índio’ é um metal da tabela periódica, não tem nada a ver com o sistema índio que eles querem informar. Sem falar que é um termo pejorativo, que eles usam para vários fins. O termo indígena se refere mais ao coletivo indígena, é para trabalharmos com o coletivo nesse sistema Brasil que a gente precisa de ações afirmativas, políticas públicas e nos sentirmos resistentes” Esse sentimento de coletividade pode ser notado em como eles se tratam entre si: Quando não se chamam pela etnia, referem-se uns aos outros como parentes.
Segundo a organização, a maioria das pessoas está disposta a aprender. “A gente está aprendendo e ensinando ao mesmo tempo”, diz Naldo Tukano. Eles consideram que a aderência aos eventos foi satisfatória. Os indígenas foram os responsáveis por receber a deputada Manuela D’Ávila, que concorreu como vice presidente do candidato Fernando Haddad nas eleições de 2018, no lançamento de seu livro Revolução Laura e debate sobre fake news. “Nós, como indígenas, toda nossa história viemos sofrendo com as fake news. Tal com histórias contadas didaticamente, nos livros, falando o que os indígenas não são. É isso que a gente está tentando trazer para a universidade: desmistificar nossa história”, diz Arlindo Gregório.
As palestras foram transmitidas ao vivo e podem ser acessadas tanto pelo evento no Facebook quanto pela página Acadêmicos Indígenas da Unicamp.
PUC-Campinas
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| Semana Acadêmica Indígena |
A data foi escolhida devido à proximidade do Dia do Índio (19). Entretanto, não se trata de uma celebração: “Não se comemora o dia do índio. Se afirma nossa cultura de várias maneiras. É um dia que, querendo ou não, estigmatiza ainda mais o índigena, porque nas escolas todos se vestem de índio, com tracinhos no rosto e cocar e saem cantando música da Xuxa. Isso não tem nada ver, é muito preconceituoso e estigmatizador. O dia 19 é um dia de luta”, diz Naldo Tukano, estudante de Linguística. “Soa como esnobar, ridicularizar nossa realidade” complementa Arlindo Alemão Gregório, estudante de Engenharia Elétrica. Ambos integraram a organização do evento.
A Semana Acadêmica Indígena existe justamente para tornar essa data mais voltada para conscientização e protesto, abordando as questões educacional e social. João, da etnia Baniwa, inicia sua fala em uma das palestras com a seguinte frase: “Nós, indígenas, também somos sociedade brasileira”. O objetivo principal é dialogar com a universidade, desmistificando a figura do indígena. “Nós acadêmicos temos não só a obrigação de fazer isso, de buscar dialogar com a própria Unicamp, mas com a própria sociedade. Para eles, somos um tipo de estrangeiros, mas na verdade não somos” diz Arlindo Gregório.
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| Participantes da Semana Acadêmica Indígena |
Naldo Tukano também acredita que a culpa da ignorância em relação aos indígenas seja do sistema. “Existem pessoas que não nos compreendem por não terem a informação correta. Não é culpa deles, é culpa do sistema que ensina a ser preconceituoso. É lógico que tem pessoas que mesmo sabendo, tendo informação, ela continua sendo assim porque ela é ignorante e quer ser desse jeito.” Ele ainda ressalta que, dentro do sistema acadêmico, os indígenas vem tentando se adaptar à situação. O sentimento de comunhão com os outros indígenas os ajudam a superar as dificuldades. “Da nossa maneira, dentro do diálogo, vamos fazendo com que esses paradigmas sejam quebrados” diz Arlindo Gregório.
Uma das mudanças apontadas por Naldo Tukano é a mudança de linguagem: o uso da palavra “indígena” ao invés de “índio”. “O problema da palavra ‘índio’ é que ela tem uma carga totalmente negativa e pesada. Por trás dela tem todo um genocídio, etnocídio, dentre outras coisas. Sem falar que ‘índio’ é um metal da tabela periódica, não tem nada a ver com o sistema índio que eles querem informar. Sem falar que é um termo pejorativo, que eles usam para vários fins. O termo indígena se refere mais ao coletivo indígena, é para trabalharmos com o coletivo nesse sistema Brasil que a gente precisa de ações afirmativas, políticas públicas e nos sentirmos resistentes” Esse sentimento de coletividade pode ser notado em como eles se tratam entre si: Quando não se chamam pela etnia, referem-se uns aos outros como parentes.
Segundo a organização, a maioria das pessoas está disposta a aprender. “A gente está aprendendo e ensinando ao mesmo tempo”, diz Naldo Tukano. Eles consideram que a aderência aos eventos foi satisfatória. Os indígenas foram os responsáveis por receber a deputada Manuela D’Ávila, que concorreu como vice presidente do candidato Fernando Haddad nas eleições de 2018, no lançamento de seu livro Revolução Laura e debate sobre fake news. “Nós, como indígenas, toda nossa história viemos sofrendo com as fake news. Tal com histórias contadas didaticamente, nos livros, falando o que os indígenas não são. É isso que a gente está tentando trazer para a universidade: desmistificar nossa história”, diz Arlindo Gregório.
As palestras foram transmitidas ao vivo e podem ser acessadas tanto pelo evento no Facebook quanto pela página Acadêmicos Indígenas da Unicamp.
terça-feira, abril 16, 2019
Desemprego no Brasil atinge 13,1 milhões de pessoas
Isabeli Lemos
PUC-Campinas
O número de pessoas desempregadas no Brasil subiu para 12,4% no trimestre encerrado em fevereiro de 2019, atingindo 13,1 milhões de pessoas, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 29 de março. De acordo com registros feitos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), esse percentual está acima do marco de desemprego feito em novembro de 2018, que apontava 11,6%. A alta representa a entrada de 892 mil pessoas na população desocupada.
O IBGE também apontou que a população fora da força de trabalho alcançou 65,7 milhões de pessoas, a maior da série do Instituto, crescendo 0,9% frente aos três meses anteriores e 1,2% na comparação com o mesmo trimestre de 2018. Já a população ocupada ficou em 92,1 milhões de pessoas, o que representa a queda de 1,1% frente aos três meses anteriores (menos 1,062 milhão).
Com o desemprego em alta, é possível observar nas grandes cidades as filas de pessoas em busca de uma vaga de trabalho. Em Campinas, o CPAT (Centro Público de Apoio ao Trabalhador), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Trabalho e Renda de Campinas, que seleciona e encaminha trabalhadores para vagas de emprego, sente a dificuldade da população em encontrar um serviço. A coordenadora do CPAT SINE, Silvia Garcia, afirma que a causa do desemprego não se refere apenas pela falta de vagas, mas também pela eliminação de cargos que já existiam e a exigência de qualificação. “É natural que as empresas fiquem cada vez mais exigentes. É muito necessária uma boa qualificação para a entrada no mercado de trabalho”, comenta.
De acordo com os dados do CAGED disponibilizados pela assessoria de imprensa da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), a tendência é que, no decorrer do ano de 2019, tenha-se uma melhoria de emprego por causa da evolução positiva nos postos de trabalho. Os dados demonstram que, em fevereiro, foram gerados 173.139 postos de trabalho no país, cerca de 183,0% acima dos 61.188 desse mesmo mês no ano de 2018. Em Campinas foram gerados em fevereiro 1.931 postos, o que representa uma evolução de 63,92% em relação aos 1.178 gerados em fevereiro de 2018. O único segmento que mostrou eliminação de postos de trabalho foi a agropecuária (-23), mas a Indústria, os Serviços, o Comércio e a Construção Civil, geraram 1.936 postos, que começam a indicar boas perspectivas de melhora para o emprego no município, para 2019.
Embora a expectativa é que aumente o número de vagas, de acordo com o economista diretor da Acic, Laerte Martins, essa é uma recuperação muito lenta uma vez que a perda na geração de postos de trabalho foi muito elevada, entre 2016, 2017 e 2018. “O mercado espera uma boa recuperação para este ano, mas o impacto da Reforma Previdenciária do novo governo gera ainda, incertezas para a economia, que necessita crescer bem mais do que tem expandido”, afirma Laerte.
Grande parte da população que sofre com o desemprego são os jovens. Marcel Ferraz, formado em biologia há 2 anos pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), acredita que a causa que o levou a ficar desempregado por 1 ano e 4 meses foi a grande concorrência e a falta de vagas na área: “por não existir muitas vagas para a biologia e ter muita gente já formado, mas desempregado, isso acabou me causando a falta de emprego ou tendo que recorrer a outro tipo de serviço”, comenta.
Para a professora de economia da Unicamp, Bruna Wargas, o caso dos jovens é bastante emblemático, tendo em vista os dados do IBGE (2019), que aponta 26% de jovens entre 18 e 24 anos desempregados, uma taxa bastante superior à média de desemprego do país que figura em 12,4%. “Uma das explicações está na questão da experiência, o que dificulta a entrada no mercado de trabalho. A formação no ensino superior e a realização de estágios pode aumentar as chances de ingressar no mercado, mas ainda não é garantia de empregabilidade”, diz Bruna.
As muitas tensões do mercado estão em torno das expectativas do governo em aprovar medidas como a reforma da previdência. Além disso, para os economistas Bruna Wargas e Laerte Martins, a causa da diminuição do emprego está intimamente ligado ao crescimento do PIB, que vem se expandindo a taxas muito baixas (0,9% / 1,0%). A perspectiva para este ano, é de um crescimento tímido, sendo que o PIB deve crescer 2%, de acordo com o IPEA (2019). Ou seja, o movimento ainda é muito incerto, mas espera-se uma estabilidade em geral com relação ao desemprego.
Microempreendedores
O número de microempreendedores individuais em Campinas cresceu 16,55% no primeiro trimestre de 2019, em comparação com 2018. Para Bruna Wargas, é muito comum que em momento de elevado desemprego a busca por alternativas de se realocar no mercado, passam pela alternativa do empreendedorismo, mas acaba não sendo uma boa opção. “Muitas vezes, essa alternativa acaba frustrada, pois a entrada em um determinado mercado demanda um planejamento, analisar o mercado, concorrentes, clientes, fluxos de caixa etc.”, explica. Ademais, a taxa de empresas que fecham no primeiro ano de funcionamento no Brasil é bastante elevada.
Criação de vagas
O governo divulgou no dia 24 de março que, em 2018, o País criou 529 mil postos com carteira assinada, após 3 anos seguidos de demissões superando as contratações. A projeção dos economistas para 2019 está entre 590 mil e 870 mil de vagas com carteira assinada, mas a taxa de desemprego ainda deve ficar acima de 10%. O trabalho informal continuará a superar o emprego formal, e a taxa de desemprego deverá terminar o ano ainda em dois dígitos.
Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro criticou a metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para medir a taxa de desemprego no Brasil, após divulgarem um crescimento de 0,8% no último trimestre. O presidente afirma que ela tende a elevar o índice em momento nos quais a economia está se recuperando de crises.
O IBGE, assim como órgãos de estatística de outros países, considera como desempregados apenas as pessoas que estão procurando, mas não conseguiram encontrar um emprego. Os que não possuem emprego e não estão procurando são enquadrados em outra categoria, de população desalentada.
Para Bolsonaro, o problema com os dados do IBGE é que, quando há uma pequena melhora na perspectiva econômica, essas pessoas que não estavam procurando emprego, procuram, e, quando procuram e não acham, aumenta a taxa de desemprego. “É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população”, comenta Bolsonaro.
Em nota, o IBGE declarou que “a metodologia adotada segue recomendações dos organismos internacionais, em especial a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com o intuito de garantir a comparabilidade com outros países”. Mas, em entrevista à rede de televisão Record, no dia 1º de abril, Bolsonaro afirma que essa metodologia aplicada em outros países não é a mais correta. “É fácil ter a metodologia precisa no tocante à taxa de desemprego. É você ver dados bancários, dados junto à Secretaria de Trabalho, quantos empregos geramos a mais ou a menos no mês”, disse o presidente.
Essa não é a primeira vez que Bolsonaro faz críticas ao IBGE. Em novembro de 2018, ele expôs que quer mudar a metodologia do cálculo da taxa de desemprego. Segundo ele, beneficiários do Bolsa Família são contabilizados como empregados. “O que está aí é uma farsa. Quem recebe Bolsa Família é tido como empregado, quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado. Temos que ter uma taxa não de desempregados e sim de empregados”, afirma. Como resposta, o IBGE negou essa informação.
PUC-Campinas
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| Fila de trabalhadores em busca de emprego no CPAT de Campinas |
O IBGE também apontou que a população fora da força de trabalho alcançou 65,7 milhões de pessoas, a maior da série do Instituto, crescendo 0,9% frente aos três meses anteriores e 1,2% na comparação com o mesmo trimestre de 2018. Já a população ocupada ficou em 92,1 milhões de pessoas, o que representa a queda de 1,1% frente aos três meses anteriores (menos 1,062 milhão).
| “ É muito necessária uma boa qualificação para a entrada no mercado de trabalho ” |
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| Silvia Garcia, coordenadora do CPAT SINE |
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| Criação de vagas ainda deixa a desejar |
| “ O impacto da Reforma Previdenciária do novo governo gera ainda, incertezas para a economia” |
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| Laerte Martins |
Grande parte da população que sofre com o desemprego são os jovens. Marcel Ferraz, formado em biologia há 2 anos pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), acredita que a causa que o levou a ficar desempregado por 1 ano e 4 meses foi a grande concorrência e a falta de vagas na área: “por não existir muitas vagas para a biologia e ter muita gente já formado, mas desempregado, isso acabou me causando a falta de emprego ou tendo que recorrer a outro tipo de serviço”, comenta.
| “ A formação no ensino superior e a realização de estágios pode aumentar as chances de ingressar no mercado, mas ainda não é garantia de empregabilidade” |
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| Bruna Wargas |
As muitas tensões do mercado estão em torno das expectativas do governo em aprovar medidas como a reforma da previdência. Além disso, para os economistas Bruna Wargas e Laerte Martins, a causa da diminuição do emprego está intimamente ligado ao crescimento do PIB, que vem se expandindo a taxas muito baixas (0,9% / 1,0%). A perspectiva para este ano, é de um crescimento tímido, sendo que o PIB deve crescer 2%, de acordo com o IPEA (2019). Ou seja, o movimento ainda é muito incerto, mas espera-se uma estabilidade em geral com relação ao desemprego.
Microempreendedores
O número de microempreendedores individuais em Campinas cresceu 16,55% no primeiro trimestre de 2019, em comparação com 2018. Para Bruna Wargas, é muito comum que em momento de elevado desemprego a busca por alternativas de se realocar no mercado, passam pela alternativa do empreendedorismo, mas acaba não sendo uma boa opção. “Muitas vezes, essa alternativa acaba frustrada, pois a entrada em um determinado mercado demanda um planejamento, analisar o mercado, concorrentes, clientes, fluxos de caixa etc.”, explica. Ademais, a taxa de empresas que fecham no primeiro ano de funcionamento no Brasil é bastante elevada.
Criação de vagas
O governo divulgou no dia 24 de março que, em 2018, o País criou 529 mil postos com carteira assinada, após 3 anos seguidos de demissões superando as contratações. A projeção dos economistas para 2019 está entre 590 mil e 870 mil de vagas com carteira assinada, mas a taxa de desemprego ainda deve ficar acima de 10%. O trabalho informal continuará a superar o emprego formal, e a taxa de desemprego deverá terminar o ano ainda em dois dígitos.
Bolsonaro
| “ Temos que ter uma taxa não de desempregados e sim de empregados” |
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| Bolsonaro |
O IBGE, assim como órgãos de estatística de outros países, considera como desempregados apenas as pessoas que estão procurando, mas não conseguiram encontrar um emprego. Os que não possuem emprego e não estão procurando são enquadrados em outra categoria, de população desalentada.
Para Bolsonaro, o problema com os dados do IBGE é que, quando há uma pequena melhora na perspectiva econômica, essas pessoas que não estavam procurando emprego, procuram, e, quando procuram e não acham, aumenta a taxa de desemprego. “É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população”, comenta Bolsonaro.
Em nota, o IBGE declarou que “a metodologia adotada segue recomendações dos organismos internacionais, em especial a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com o intuito de garantir a comparabilidade com outros países”. Mas, em entrevista à rede de televisão Record, no dia 1º de abril, Bolsonaro afirma que essa metodologia aplicada em outros países não é a mais correta. “É fácil ter a metodologia precisa no tocante à taxa de desemprego. É você ver dados bancários, dados junto à Secretaria de Trabalho, quantos empregos geramos a mais ou a menos no mês”, disse o presidente.
Essa não é a primeira vez que Bolsonaro faz críticas ao IBGE. Em novembro de 2018, ele expôs que quer mudar a metodologia do cálculo da taxa de desemprego. Segundo ele, beneficiários do Bolsa Família são contabilizados como empregados. “O que está aí é uma farsa. Quem recebe Bolsa Família é tido como empregado, quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado. Temos que ter uma taxa não de desempregados e sim de empregados”, afirma. Como resposta, o IBGE negou essa informação.
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Unicamp
segunda-feira, abril 08, 2019
Especialista do Ipea vê necessidade de mudanças diante do aumento da população idosa
Mattheus Angelo Alves
Lopes
PUC-Campinas
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| VIII Conferência Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa de Campinas realizada na Unicamp no mês de março |
“Quando você mexe na
Previdência, você mexe no mercado de trabalho”, afirmou, em entrevista
telefônica, Ana Amélia Camarano, economista do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (IPEA) e doutora em demografia que, nos últimos 20 anos, tem
concentrado suas pesquisas na área de envelhecimento populacional - “e ela (a reforma)
não está focando no mercado de trabalho e nas suas consequências”, diz.
Camarano afirmou que está
produzindo uma pesquisa sobre dificuldade de inserção do trabalhador com idade avançada
no mercado de trabalho. “Gosto de chamá-los de nenéns; nenéns
maduros”, diz, fazendo uma analogia com a vida infantil, sublinhando que o
mesmo deveria ocorrer com pessoas de idade avançada.
“Eu acho que, com a reforma,
deveria se desenvolver uma política pública de recapacitação desse trabalhador
que está com dificuldade de entrar no mercado de trabalho... pois um argumento
do preconceito é a dificuldade de o idoso acompanhar as mudanças tecnológicas”,
acrescentou.
A partir dos 60 anos, as
pessoas se planejam e se consideram em um período de repouso e de busca do bem-estar
físico e mental, principalmente os que têm uma dependência de terceiros. Quando
questionada se a sociedade está preparada para receber esse grupo, Ana Amélia
aponta: “a área de cuidados, é onde praticamente não se tem políticas públicas
para amparar. Tanto a Constituição de 1988 como a Política Nacional do Idoso
dizem que a família é a principal responsável pelo idoso dependente, mas o
Estado não tem feito nada para ajudar essas famílias a cuidar”, apontou Ana
Amélia.
Em Campinas, mudanças e exigências sobre o papel do idoso estão
sendo reformuladas. No mês de março, nos dias 28 e 29, ocorreu a VIII Conferência
Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa de Campinas, programada pelo Conselho
Municipal do Idoso (CMI), com o tema “Os Desafios de Envelhecer no Século XXI e
o papel das Políticas Públicas”, no Centro de Conferências da Unicamp.
Pressão
demográfica
Esses dados apontam a necessidade de adaptação que o País terá de
enfrentar como parte essencial integradora de um recorte populacional que
expressara aspectos ainda não reformulados pelos conceitos sociais e o mercado
trabalhista, sendo o segundo de expressão relevante como impulsionador
econômico, visto que a população idosa ocupara mais espaços sociais, evidenciado pela projeção populacional realizada pelo IBGE.
Em 2045, a população do Estado de São Paulo com 60 a 64 anos terá crescido de
4.8% (2018) para 6.51%, e os dados só têm de aumentar quando analisados até o
ano de 2060, limite máximo da projeção, sem incluir ainda os grupos acima de 64
anos.
De acordo com a Reforma da Previdência apresentada pelo presidente
Jair Bolsonaro, a mulher terá que ter idade mínima de 62 anos para se
aposentar, e o homem 65. O tempo de contribuição sobe para 20 anos (idade
mínima é a mesma para funcionários públicos e privados) e o aposentado só
recebera 100% do benefício se pagar ao INSS por 40 anos, sendo mais um aspecto
que levara mais idosos na busca de cargos trabalhistas.
Fora as alterações trazidas em âmbito bruto e factual, a Reforma
apresentada também traz desfalque social. Para o idoso competir em vagas de
trabalho é mais dificultoso, sendo uma argumentação baseada no fato de ele não
ser mais capaz de acompanhar as novas interações sociais e se desenvolver
enquanto empregado, causando uma preferência pelo indivíduo de idade mais nova.
Entretanto, o número de jovens não vem se equiparando ao crescimento senil,
formulando um paradigma econômico, já que se aqueles que têm 60 anos ou mais serão
uma grande parcela na população, mas os mesmos não ocuparão cargos trabalhistas
por conta de um preconceito social.
Cooperação
Ianê Nogueira do Vale, 67 anos, ex-docente
na faculdade de enfermagem da Unicamp e que hoje comanda a Vale Amamentar, empresa
de consultoria que atende mulheres no pré e pós-parto. A cooperação de pessoas
mais novas e mais velhas é um ponto inicial da consultoria. Impulsionada por uma
ex-aluna de 26 anos, hoje socia, que instigou Ianê a participar do projeto, é
um ponto ressaltado na entrevista, que une a vontade da primeira, com a experiência
da segunda. Relatando um acompanhamento realizado, a ex-docente fala da
dificuldade que sua socia estava tendo em um atendimento e como sua bagagem de
conhecimento técnico foi essencial no encaminhamento por ser mais experiente,
para que a mãe atendida se desenvolvesse – “É nesse sentido que cooperação
jovem e idoso dá certo; se eu não tivesse essa jovem comigo eu não teria
estruturado a Vale Amamentar, não teria energia pra gerenciar as redes sociais.
Eu preciso dela, e ela precisa de mim. A integração ocorrida por meio de uma
jovem, indica a formação de um novo produto até então não esperado por uma
pessoa acima de 60 anos onde se é esperado uma retração trabalhista por parte
do indivíduo. “Olha eu tenho certeza que eu não sou normal.” Brinca, quando
questionada sobre sua idade e o mercado de trabalho – “Por ter trabalhado a
vida toda, eu nunca sonhei em ser uma dona de casa. Claro, eu faço aula de
tricô e atividades consideradas caseiras, mas se a casa está bagunçada e tenho
coisas mais importantes e prazerosas pra fazer com relação ao meu trabalho, a
casa fica bagunçada. Pra mim sempre foi imperioso ter uma atividade.”
A Educação é um tópico polêmico em relação às
pessoas idosas. Entretanto, assim como mostra em um projeção populacional
realizada pelo IBGE, em 2045, a população com 60 a 64 terá crescido de 4.8%
(2018) para 6.51%,e o dados só têm de aumentar quando analisados até o ano de
2060, limite máximo da projeção. A falta de inclusão nas áreas da educação
também deve ser englobada. “Quando eu me aposentei, procurei um programa
chamado UniversIDADE. É feito pela Unicamp e por professores que oferecem aulas
pra pessoas com mais de 50 anos. Uma das disciplinas que eu fiz chamava ‘Jogando
Videogame’ com uma classe cheia de idosos. Isso me faz acreditar que é possível
sim, um idoso estudar e se engajar na sociedade atual”, aponta.
Com a junção de políticas públicas e conceitos sociais sendo renovados, a população mais velha é colocada sob uma nova perspectiva que a vê não como estorvo ou um atraso econômico e social, mas como uma parcela disponível para gerenciamento de atividades diversas. Do tricô ao videogame, o idoso é a prova da adaptação humana e da necessidade de o Estado oferecer base para estes. “Ser idoso é uma oportunidade de se redescobrir” finaliza Ianê.
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